Pelo teatro, “somos convidados a olhar muito além da nossa trajetória pessoal”, afirma a autora de "os Sinais do Medo", que apela a uma maior presença da mulher nos palcos, como criadoras e intérpretes, e que alerta para o ressurgimento do racismo, da xenofobia, da homofobia, do sexismo, das forças de opressão que ameaçam pessoas e sociedades. E o teatro, assegura, tem o poder da resistência e da verdade.

Na mensagem para o Dia Mundial do Teatro, a atriz e escritora realça “o valor inestimável da Mulher na cultura”, que não se pode “ignorar” ou “apagar” e apela a uma maior participação feminina no trabalho dramatúrgico.

“Queremos ver mais textos que reflexionem sobre as questões das mulheres, mais encenadoras, mais cenógrafas, mais figurinistas, mais personagens femininas complexas e ricas de interioridade, para as nossas atrizes explorarem todo o seu potencial, mais mulheres na direção dos teatros”.

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“Numa época em que o racismo, a xenofobia, a homofobia e o sexismo estão a ressurgir com uma força alarmante, não nos podemos dar ao luxo de permanecer em silêncio. Estas forças de divisão e opressão ameaçam não só os indivíduos, mas o próprio tecido das nossas sociedades. E perante a escuridão, a arte - especialmente o teatro - tem o poder de ser um farol de resistência, verdade e transformação”, afirma Zanatti.

“No Teatro não existem fronteiras, nem divisões entre os humanos”, atesta Zanatti, acrescentando: “No Teatro luta-se pela justiça, desafia-se a cegueira e a obstinação, quer através do riso, do texto poético, do diálogo realista ou surreal. O pano sobe, não para nos levar a um espaço de fuga, mas para nos propor um convite à experiência emocional, ao estímulo da razão, à fruição de inúmeros sentidos”.

“O Teatro, derruba muros, é vanguardista, enfrenta os medos, e reunindo em si a literatura, a poesia, a pintura, a música e outras artes, é um poderosíssimo agente de mudança. O Teatro e as suas máscaras desmascaram”, defende a atriz.

Ana Zanatti, a atriz de cinema e teatro que fez drama e comédia, pisou palcos de revista e fez telenovelas como “Vila Faia”, que interpretou Luigi Pirandello e Peter Shaffer, e protagonizou "O Lugar do Morto", de António-Pedro Vasconcelos, realça que o Teatro “é um espelho gigante onde se confrontam realidades, desafiam preconceitos e se inspiram novos futuros”.

O teatro, afirma, "é um reflexo de quem somos, um espaço onde as nossas lutas, inquietações e esperanças mais profundas ganham vida”.

“Pela palavra, pelo gesto, pela expressão de um olhar, de um corpo, pelos trajes, pelo cenário, pela luz, pelo som, o teatro espevita o mundo, estimula, questiona, subverte, diverte, aplaude, critica, surpreende, desperta”, escreve a atriz.

A finalizar Zanatti reflete sobre si: “Já não subo às árvores e também tenho subido menos ao palco. Mas a minha voz sobe, hoje e sempre, para juntar-se à vossa, e gritarmos firme e orgulhosamente : Viva o Teatro!”.

O Dia Mundial do Teatro é celebrado a 27 de março desde 1961, numa iniciativa do Instituto Internacional do Teatro, parceiro da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Hoje, entre estreias, leituras encenadas e reposições, várias companhias teatrais e salas portuguesas de espetáculos vão assinalar a data, cuja mensagem internacional questiona se esta arte conseguirá responder aos desafios sociais e ambientais.

Em Lisboa, a efeméride é assinalada com a inauguração da Sala Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, no recinto do antigo Hospital Miguel Bombarda, numa iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II, em parceria com a Largo Residências e a Unidade Local de Saúde São José.

Para o Dia Mundial do Teatro, A Barraca retoma "Amor é um fogo que arde sem se ver…", de Maria do Céu Guerra e Hélder Mateus da Costa, com Camões por guia, e os Artistas Unidos, ainda sem espaço próprio, propõem teatro radiofónico com "Uma solidão demasiado ruidosa", a partir do romance de Bohumil Hrabal, às 19h00, na Antena 2, no espaço "Teatro Sem Fios".

A norte, Fernando Gomes escreveu, encenou e também faz parte do elenco de "Chaimite, um possível musical", que estará em cena até 12 de abril no Teatro Municipal Sá de Miranda, em Viana do Castelo.

No Porto, o Teatro Nacional São João assinala a efeméride com várias iniciativas, convidando o público para visitas guiadas e para um ensaio aberto da próxima produção, "Hamlet", com encenação de Nuno Cardoso, que se estreia em abril.

A exposição “Liberdade! Liberdade! A revolução no Teatro”, sobre o papel do teatro na transição da ditadura para a democracia, iniciativa do Museu Nacional do Teatro e da Dança com apoio da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, fica patente a partir de hoje no Porto, no Clube Fenianos Portuenses, e em Setúbal, no Fórum Municipal Luísa Todi.

O Centro Dramático de Évora (Cendrev) acolhe a apresentação de “A Festa”, pelo Teatro das Beiras, na cidade alentejana, e leva “Embarcação do Inferno”, em coprodução com a Escola da Noite, a Coimbra.

Nas Caldas da Rainha, o Teatro da Rainha inicia o ciclo Pimentíada, sobre a obra de Alberto Pimenta, com encenações, composições musicais, leituras, projeções e um colóquio, a decorrer até 5 de abril, numa "celebração explosiva” para dar “uma pedrada no charco do ‘comemorativismo’ rotineiro”.