
Não é novidade, mas cada vez há mais estudos que o provam, Portugal tem o pior resultado de saúde mental da OCDE e o acesso difícil aos serviços de psicologia não ajuda este número. Além disso, hoje foi publicado um estudo que revela que metade dos jovens da União Europeia (49%). Para os portuguesas, descansar é ser preguiçoso, ter momentos de lazer é ser mau trabalhador.
Hoje foi publicado o Livro Branco sobre o Bem-Estar Mental dos Jovens na Europa, lançado pela Z Zurich Foundation. Os dados divulgados referem que quase metade dos jovens na União Europeia (49%) relatam necessidades de cuidados de saúde mental não satisfeitas, em comparação com 23% da população adulta.
Portugal não é excessão. Um estudo realizado pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, em 2023, refere que o número de adolescentes em Portugal com sintomas depressivos aumentou para 45% e são quase metade 6,5 mil (45,4%) os adolescentes que apresentaram sintomatologia depressiva, representando um aumento face aos números de anos anteriores.
Esta tendência mantém-se e, segundo a informação divulgada relativa à União Europeia, não se prevê que estes números diminuam. Atualmente, entre os jovens europeus com idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos, "o suicídio é a segunda principal causa de morte prematura”.
“O bem-estar mental dos jovens é crucial para a sociedade e vai além do tratamento de problemas à medida que estes surgem, abrangendo o desenvolvimento de uma vida plena. Inclui a literacia emocional e as competências para identificar quando se está sob stresse e para defender os próprios interesses; a resiliência para responder aos altos e baixos da vida; relações fortes e competências sociais; e a capacidade de participar e contribuir para a sociedade”, sublinha-se no documento.
Associados ao diagnóstico de depressão, estão sintomas de ansiedade, sensação de isolamento, comportamentos obsessivos compulsivos e stress pós traumático. As dinâmicas familiares, as relações com as redes sociais, os casos de abuso de poder e de bullying entre pares estão também relacionadas com estes resultados.
Em entrevista ao SAPO24, Francisco Valente Gonçalves, psicólogo clínico, professor na Universidade Europeia e diretor da Rumo, plataforma fundada em 2017 para dar consultas de saúde mental online, e um dos parceiros do projeto Paola, que criou um Observatório de Whistleblowing na Academia, confirma esta ideia, tendo por base os casos de comportamentos antiéticos em sala de aula.
Um em cada cinco estudantes universitários já teve algum tipo de contacto com este tipo de situações. Um estudo, liderado por Francisco Valente Lopes, publicado na Brazilian Journal of Forensic Sciences, Medical Law and Bioethics, revela que entre os problemas mais frequentes estão o abuso de poder, o assédio e a discriminação, num contexto que muitas vezes desencoraja a denúncia por medo de represálias.
Uma infância privada de prazer, a cultura de workaholism e o consumo de álcool cada vez mais cedo
Outro dos fenómenos associados à falta de saúde mental em Portugal tem que ver com a pobreza sistémica e a cultura de obsessão com a ideia do trabalho. “Em comparação com os outros países da União Europeia, [os portugueses] tinham maiores privações materiais na década de 70, de 80 e início da década de 90", recorda o sub-diretor-geral da Saúde para a área da Saúde Pública, André Peralta, em declarações à Lusa, acrescentando: "os portugueses vivem muito, mas vivem muito tempo com má qualidade de vida”.
Tal como referem os dados da OCDE, Portugal está cinco pontos percentuais abaixo da média europeia, em relação ao sentimento de bem estar e boa saúde, de forma geral. Além disso, Portugal é o quinto país europeu com maior prevalência de questões de saúde mental, com uma estimativa de 18,4% da população.
A falta de tempo para descansar e a cultura de obsessão com o trabalho potenciam estes sentimentos de ansiedade e mau-estar geral. Entre os diagnósticos de saúde mental, o burnout (esgotamento) é especialmente preponderante nos jovens. De acordo com o Stada Health Report 2024, 60% dos europeus já sofreu ou experienciou sintomas de burnout. Os mais afetados são os jovens entre os 18 e 34 anos.
Também os níveis de alcoolismo entre os jovens, como reflexo de números cada vez maiores associados ao consumo de álcool em Portugal, surgem no seguimento desta reflexão. A idade de início do consumo de álcool entre os jovens portugueses agravou-se nos últimos anos, assim como as situações de embriaguez severa, dos consumos de risco elevado e da dependência.
Os dados que constam no relatório anual sobre a situação do país em matéria de drogas e toxicodependências e álcool referente ao ano de 2023, do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), apresentado ontem na Assembleia da República, revelam que "a tendência de aumento da dependência quase quadruplicou em dez anos”.
*Edição por Ana Maria Pimentel
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