O Financial Times elegeu as melhores lojas de discos do mundo para comprar vinil. São 39 no total e uma delas é a portuguesa Flur, no Mercado de Arroios. O SAPO24 foi conhecê-la e descobriu 26 metros quadrados de música para todos os gostos. 

"Lisboa é um ótimo local para encontrar música de todo o mundo lusófono, e os seus mercados de velharias têm muitas preciosidades de Cabo Verde, Angola, Brasil e Guiné-Bissau. A melhor loja de discos é a Flur, que tem muitos discos, muitos deles locais e inspirados nas antigas colónias portuguesas", escreve Richard Milne, que atualmente faz a cobertura dos países nórdicos e do báltico.

A loja no Mercado de Arroios é a segunda casa da Flur, palavra que significa corredor em alemão (e flúor numa quantidade de línguas), uma alusão ao primeiro espaço que ocupou, em Santa Apolónia, em frente do Lux, entre 2001 e 2021, primeiro mais voltada para a música de dança, também pela proximidade da discoteca, depois com muito mais estilos, reflexo dos gostos pessoais dos sócios e da atenção ao que se produz.

A mudança aconteceu em plena pandemia. "Abrimos no dia em que o país saiu à rua após o segundo confinamento", conta André Santos, um dos sócios. Na verdade, foi uma coincidência, "as obras acabaram duas semanas antes, o tempo para arrumar a loja". Com tanta sorte que "as pessoas vinham cheias de vontade de comprar" depois de estarem fechadas em casa três meses.

André Santos - Flur
André Santos - Flur André Santos - Flur créditos: 24

Hoje, "não nos podemos definir por um estilo e não queremos ser reconhecidos por isso. Porque não vemos a música assim". Na loja, "todos gostamos de tudo, mas cada um tem o seu estilo particular, que, instintivamente, acabamos por procurar mais ativamente: André eletrónica, "Tomás hip-hop, Márcio música de dança, Zé vai mais atrás de coisas antigas e tem facilidade em chegar a vendedores de segunda mão".

Além dos gostos pessoais dos sócios, a Flur acompanha as tendências, o que vai saindo no mercado, mesmo que as músicas "não sejam do nosso agrado". E, apesar do que diz o editor do Financial Times, "a Flur vende mais música estrangeira do que portuguesa, sobretudo na área eletrónica, experimental, mas também pop-rock".

Todas as semanas a loja recebe entre 200 e 250 novos títulos, experimental, eletrónica, música que varia da dança, hip-hop, rock, jazz, soul e muito mais. Em vinil, sobretudo LP e uma pequena percentagem de 'maxi', mas também no formato CD e cassete - neste último caso mais música eletrónica e industrial, "coisas que habitualmente saem apenas neste formato, porque é mais barato".

O vinil esteve fora de moda algumas décadas, mas ressuscitou em meados dos anos 2000, mais popular nos últimos dez a 15 anos. Os discos vendidos são sobretudo novos, mas também há um mercado que vende segunda-mão, um segmento que na Flur representa cerca de 20% do total, embora esteja a crescer.

O vinil voltou a fazer as pessoas comprarem música

"As pessoas estavam a deixar de ouvir música. Tenho 41 anos e os meus amigos não compravam, mas agora há uma geração de 20 a 25 anos que compra. Quando comecei aqui, em 2006, não havia muita gente nova a comprar discos, agora há muito mais". Hoje, a grande fatia dos clientes tem entre 20 e 55 anos. À loja também vão estrangeiros, mas a Flur não vive de turismo, "em média, se aparecer um por dia, é bom". A base de clientes é nacional.

"Apesar de muita gente saber exatamente o que quer, a Flur acaba por funcionar como um filtro e os clientes acreditam na nossa escolha", explica André Santos. "O problema é que não se fala muito de música e as pessoas estão agarradas à ideia daquilo que o algoritmo lhes sugere, deixando para trás uma quantidade de discos que não são, aparentemente, o seu estilo, e nunca viriam a conhecer se não fosse o nosso trabalho. Por causa do algoritmo ficámos preguiçosos, o nosso papel é tentar abrir um pouco a cabeça das pessoas, dar-lhes coisas ao lado, que se calhar não iriam ouvir por sua livre e espontânea vontade".

Flur o vinil de Arroios
Flur o vinil de Arroios Flur o vinil de Arroios créditos: 24

O disco faz com que ouvir música seja um ato ativo, é preciso procurar. As pessoas gostam muito de dizer que música é cultura, que música é arte, mas para a maioria não é verdade, acaba por ser uma coisa de fundo como outra qualquer. Quando ouvir música é como ler um livro, não dá para estar a fazer outras coisas aos mesmo tempo".

O preço médio dos discos ronda os 22€ no caso dos LP, 30€ se for um duplo, enquanto os 'maxi' custam 14€ a 15€. As variáveis são imensas e um disco de vinil pode ultrapassar os 50€.

O "mais chato" do negócio é que "não dá dinheiro". André Santos, Márcio Matos (44), José Moura (55) - além de Tomás (30), "que não é dono, mas é como se fosse" -, todos os sócios têm um segundo emprego, porque "viver só disto não dava". "Quando gostas de música e tens um negócio estás sempre sem dinheiro", desabafa Márcio.

Por ano, a Flur vende cerca de 18 mil discos. "Não conseguimos viver da música", mas o negócio paga-se. "A loja nunca teve lucro", diz Márcio, "acho que uma vez deu 40 euros". "O mais engraçado é que recebemos discos em quantidades limitadas, mas às vezes todos queremos um disco. Antes, chegávamos a esquecer os clientes, mas com os anos aprendemos a ter algum desapego", acrescenta.

O que fazemos em Portugal é difícil, o teto é muito baixo. As coisas funcionam em escala e vendendo a música que vendemos, teríamos de vender três a quatro vezes mais. Há cinco pessoas para um disco, não há mais", garante André.

"Houve uma altura", recorda, "que mandávamos vir quatro cópias de um disco e três eram logo compradas por clientes. A cópia que sobrava ficava na loja durante anos, até vir alguém, normalmente um turista, que a apanhava e ficava surpreendido por encontrar aquele disco". Por isso, "já acho incrível nós existirmos, mesmo na Europa não há muitas lojas como nós".

Se há algum disco que tenham comprado e nunca tenham conseguido vender? Riem-se, "deve haver uns quantos". Mas não se lembram de nenhum. Neste momento, a loja tem cerca de 6 mil discos, estão sempre a rodas, "as prateleiras já estiveram mais cheias". A Flur está aberta todos os dias das 11h00 às 19h00, ao sábado abre uma hora mais cedo e ao domingo fecha para descanso do pessoal.

O negócio pode não render, mas "música é vida", diz Márcio

Sair no Financial Times deu nas vistas. "Muitos clientes deram-nos os parabéns e recebemos visitas de pessoas que vieram porque leram o artigo ou viram uma menção ao artigo". Os próprios sócios não sabiam que ia acontecer, "há dois ou três meses fizeram-nos umas perguntas, só para confirmar, e foi aí que soubemos".

"Mais do que melhor ou pior, acho que somos uma loja muito distinta de todas as outras, das que conhecemos e daquelas com quem trabalhamos, mesmo lá fora. E isso é especial", confessa André Santos.

Para lá da loja de discos, os sócios da Flur têm ainda outro negócio em conjunto, a Holuzam (palavra que não quer dizer nada), uma editora, que recentemente editou o último disco de Joana Gama e Luís Fernandes. "Temos editado uma série de artistas portugueses de música eletrónica e experimental, ou porque nos são próximos, ou porque eles próprios sugerem. Também fazemos reedições, aliás, a editora começou por reeditar um disco de telectu, o que vai continuar a fazer. Mas também temos artistas estrangeiros, na mesma lógica. A editora não é só focada em música portuguesa, mas acaba por ser o grosso, queremos ter essa proximidade".

Flur o vinil de Arroios
Flur o vinil de Arroios Flur o vinil de Arroios créditos: 24

André é crítico "da forma como Portugal vive a cultura. Até a música que se faz mais à margem torna muito difícil vender música portuguesa lá para fora. Os discos de artistas estrangeiros, até pode ser um artista que está a editar o primeiro disco connosco, são muito mais fáceis de vender do que qualquer disco de música portuguesa". No ano passado, a música portuguesa que mais venderam foi Maria Reis, ex-Pega Monstros, uma banda independente.

Os apoios para discos nunca chegam às lojas, "recebe-se um apoio para fazer uma música e, quando está feita, passa-se para outra. Podíamos beneficiar mais se pegássemos nesse dinheiro e promovêssemos a música no estrangeiro, para fazer escalar as vendas. Mas esse dinheiro para crescer não existe, por isso não se vende música portuguesa lá fora. Outras estratégias funcionariam melhor, por exemplo, se as ajudas fossem mais agregadoras e não privilegiassem cada um por si".

Além da Flur, a lista de preferências inclui a Bar Italia Records, em Paris, bem perto cemitério onde estão sepultados nomes da música como Édith Piaf, Chopin e Jim Morrison, a Barcelona City Records, em Las Ramblas, ideal para comprar discos latinos, ou a Rough Trade, que no final do ano passado reabriu no centro de Londres, 17 anos depois de ter fechado a casa nas catacumbas de Covent Garden.