Embora Erdogan não seja uma personalidade simpática, com uns modos até bastante rudes, há que reconhecer-lhe a fina inteligência que o mantém no poder desde 2003, num país colocado exatamente entre a Europa e a Ásia, numa confluência de religiões, etnias e interesses políticos diversos, que tornam a governação um jogo de elegância e violência, esperteza e mão forte.

Como toda a gente sabe, a Turquia moderna é o que resta do formidável Império Otomano, que nos séculos XVI e XVII aterrorizou a Europa e tornou a navegação europeia no Mediterrâneo numa aventura tenebrosa. Dominava toda a península da Arábia, três cidades sagradas - Medina, Meca e Jerusalem - e aterrorizava as muitas minorias étnicas: judeus, cristãos ortodoxos e coptas, e muitas outras. Nesse particular, ficou famoso o genocídio de cerca de um milhão de arménios, ocorrido no princípio do século XX, que a Turquia até hoje não reconhece.

O azar dos turcos foi terem alinhado com os alemães na I Guerra Mundial, o que deu oportunidade aos ingleses de desmantelar completamente o seu domínio na península da Arábia, aliando-se com as tribos locais. (Lembra-se do Lawrence da Arábia? A história é verdadeira: oficial inglês infliltrado nas tribos, ajudou a organizar a resistência aos otomanos.) No final da guerra, a Turquia estava completamente despedaçada geográfica e moralmente. Um dos seus generais, que ficaria conhecido na História como Mustafa Kemal Atatürk, em 1923 liderou uma revolução cujo objectivo era transformar o país num estado moderno e secular, à maneira ocidental. Foi abolido o fez (aquele chapéu vermelho sem abas), as mulheres passaram a votar em 1934 e vestem-se à ocidental (ainda que sem exageros…)

Ataturk continua a ser o maior herói nacional e uma figura mítica, mas o país, que realmente se modernizou consideravelmente, optou maioritariamente pela a religião muçulmana.

A vida da república foi bastante instável, com vários golpes e contra-golpes, mas o que interessa é que durante a Guerra Fria (1945-89) se aliou aos Estados Unidos para contrariar a influência da União Soviética. Participou do lado americano na Guerra da Coreia (1950-53), entrou para a NATO em 1952 e reconheceu Israel em 1948. Temos aqui uma série de incompatibilidades, que os sucessivos governos de Ankara foram navegando o melhor possível - ao ponto de a Turquia ter bases de mísseis de guerra aos russos. Na Guerra da Ucrânia fornece drones aos ucranianos mas mantém relações cordiais com Putin

Uma minoria que ficou em parte dentro do território turco foram os curdos, com outra parte na Síria e no Iraque. Convém lembrar aqui que a culpa desta situação é dos franceses e ingleses, que se “esqueceram” que os curdos tinham uma identidade muito forte e podiam perfeitamente ser autónomos. Desde então, apoiados informalmente pelos Estados Unidos, dominam um território que inclui a parte turca que ainda ficou na Península da Arábia, o norte do Iraque e o norte da Síria. Na Turquia formaram um partido regional, o PKK, que é considerado terrorista e sempre combatido por Ankara.

Os sírios, sob o regime da casa Assad, apoiaram sempre os curdos; agora, que o regime de Assad caiu rápida e estrondosamente, os turcos já começaram a atacar as árias curdas no norte da Síria. Mas, pelo menos até Trump olhar para aquele lado do mapa, o apoio norte-americano mantém-se, até porque é uma maneira de impedir o renascimento do Estado Islâmico formado em 2006 no Iraque e norte da Síria.

Voltemos a Erdogan. Para já, os dados: a Turquia tem 85 milhões de habitantes, a capital é Ankara (e não Istambul, como toda a gente pensa) e é oficialmente uma república parlamentar laica, presidencialista, com uma assembleia legislativa de 600 deputados e os três poderes a funcionar.

Erdogan começou por fundar o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) em1985 e elegeu-se primeiro ministro em 1987. Inicialmente optou por uma postura laica, mas aos poucos tem vindo a tornar o islamismo como religião oficiosa. A sua mulher aparece sempre com um hijab que mal deixa ver o rosto e umas capas que escondem o corpo.

Embora seja óbvio que Erdogan é islamista, pelo menos até 2005 não reprimiu as demonstrações públicas de laicidade (mulheres sem véu, homens sem barba), porque queria que a Turquia entrasse para a União Europeia. Candidatou-se logo em 1987, mas os europeus, muito delicadamente, foram atrasando o pedido, porque um Orban já lhes chegava  (Orban é radical cristão, o que não fica muito longe) e porque a Turquia ainda está realmente longe de cumprir o grau de democracia exigido. Antes pelo contrário; Erdogan cada vez segue mais a cartilha de Orban. Finalmente, em 2005, reconheceu que era melhor desistir e retirou o pedido de adesão.

Erdogan tem dois grandes problemas. O primeiro é o PKK. Os curdos não desistem da sua autonomia (no mínimo) e, embora tenham deixado a prática de actos terroristas, continuam a ser perseguidos e torturados.

O segundo problema é o CHP, partido Republicano do Povo, encabeçado pelo presidente da Câmara Municipal de Instambul, Ekrem Imamoglu, extremamente popular.

Em 2016, os militares ataturkistas, achando que o islão estava a ganhar muita força e o seu poder decaía, fizeram um golpe de Estado, parece que dirigido por Fethullan Gulen, por acaso um clérico. Escrevi “parece” porque nunca se chegou a perceber se houve mesmo golpe ou se foi uma maneira de Erdogan afastar de vez a influência dos militares. A purga atingiu também polícias, juízes, cléricos, governadores e funcionários públicos. A comunicação social também foi posta na ordem e, isso sabe-se, houve episódios de tortura. A partir daí Erdogan adoptou o regime típico dos tempos que correm: uma aparente democracia parlamentarista com três poderes e liberdade de expressão, tudo cuidadosamente “moderado” pelos agentes do regime.

Quanto ao chato do Imamoglu, foi-lhe retirado o título universitário, indispensável para ser candidato a presidente e, para garantir, prenderam-no. Não surpreende, era considerado o único candidato com sérias hipóteses de derrotar Erdogan - numa altura tão má, em que está a jogar na frente ucraniana (apoia os dois lados e quer ser mediador), na frente síria (a derrota de Assad deu-lhe espaço para aqueles lados) e talvez consiga mais território na área curda. Aliás, uma jogada em vista é reconhecer o partido curdo (PKK), uma vez que os deputados curdos dariam a maioria parlamentar para mudar a Constituição, permitindo a Erdogan mais um mandato.

É o que lhes digo, este homem maneja o chicote e a cenoura com grande perspicácia.

E depois, um futuro Califa não pode estar a preocupar-se com os chatos que aparecem de vez em quando (cada vez menos…) a morder-lhe os calcanhares,