
A comunidade paroquial de Arrifes vai celebrar entre sexta-feira e domingo a Solenidade do Senhor dos Passos, uma tradição quaresmal que evoca a Paixão e Morte de Jesus Cristo, que foi recuperada após ter sido encontrada uma escultura do Senhor dos Passos no interior da igreja.
O padre Marco Luciano disse hoje à agência Lusa que a decisão de retomar a tradição religiosa surgiu depois de ter sido encontrada na igreja dos Arrifes, “num dos sótãos existentes por cima da capela-mor”, a imagem do Senhor dos Passos, datada do século XVIII, “muito degradada”.
“Face a isso, a paróquia fez uma investigação, no sentido de [constatar] se existia uma imagem do Senhor dos Passos - também existia uma imagem da Senhora da Soledade, embora essa não tenha sido possível recuperar -, [o que] era sinal [de] que, em tempos, existiu naquela paróquia uma procissão do Senhor dos Passos e era vivida esta devoção, como em tantos lugares dos Açores, por influência dos franciscanos que trouxeram para o arquipélago a devoção à Paixão de Cristo, particularmente aos Passos do Senhor e todas essas manifestações de caráter penitencial”, disse.
Marco Luciano explicou que algumas pessoas “não se lembram da procissão, mas recordam-se de ouvirem os seus pais e os seus avós falarem precisamente de uma procissão que havia, em tempos, nos Arrifes”.
A procissão do Senhor dos Passos era realizada “nas maiores paróquias dos Açores e particularmente nas vilas e cidades, nas igrejas matrizes” e, na atualidade, “é muito residual em algumas comunidades”, mantendo-se em paróquias como Ribeira Grande, Nordeste ou Feteiras (Ponta Delgada).
“Nos Arrifes, atendendo a esta situação, atendendo a este achado, atendendo também a esta investigação que fizemos sobre a procissão do Senhor dos Passos que se deixou de fazer há tantos e tantos anos, decidiu-se restaurar a imagem e restaurar também a procissão do Senhor dos Passos, que vai acontecer no próximo fim de semana”, adiantou o sacerdote.
A tradição religiosa regressa aos Arrifes “muito provavelmente 100 anos depois”, disse.
“Com toda a segurança, estamos a falar de uma procissão que ficou mesmo perdida no tempo, porque há pessoas que, enfim, os pais, os avós, recordam-se de se falar disso. Eu não posso precisar (…) mas, como deve imaginar, nós não tivemos o tempo suficiente que era importante ter para fazermos um estudo sobre isto. Mas, o que é certo é que, muito provavelmente, estamos a falar de 100 anos, estamos a falar de um século que não se faz isto nos Arrifes”, admitiu Marco Luciano.
A escultura do Senhor dos Passos é de grande porte: “Estamos a falar (…) de uma imagem de tamanho natural, do tamanho de uma pessoa. A imagem está vergada, porque vai com a cruz às costas”.
“Trata-se de uma imagem que evoca precisamente a ida de Jesus para o Calvário, com a cruz às costas. Está vergada, mas trata-se de uma pessoa que, se estivesse de pé, seria [a sua altura] por volta de um metro e oitenta [centímetros]”, descreveu.
Segundo o sacerdote, o investimento da paróquia no restauro da escultura “foi grande” e ainda não é possível estimar o valor final, porque também foi necessário fazer outras intervenções para que a mesma pudesse ser utilizada numa procissão.
Trata-se de uma escultura de estilo “roca”, que exige vestido e outros adereços, como cabeleira. Também foi necessário construir uma cruz proporcional ao seu tamanho e preparar o andor para a transportar durante a procissão.
A paróquia de Arrifes motivou-se e está empenhada em recuperar esta manifestação de fé perdida no tempo, que vai envolver as três comunidades cristãs locais: Milagres, Saúde e Piedade.
“Há uma grande movimentação à volta desta recuperação e desta manifestação, que nós queremos que seja uma manifestação de fé. Quer dizer, não é só recuperar uma coisa que existia por recuperar, por tradição, mas queremos que isto também nos ajude em termos daquilo que é a nossa caminhada de fé”, concluiu o sacerdote.
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