
Juan Carlos de Borbón, de 87 anos, abdicou da chefia do Estado espanhol em 2014 e vive no estrangeiro, em Abu Dhabi, desde 2020 por causa de polémicas relacionadas com relações íntimas, comportamentos considerados desrespeitosos das instituições nacionais e suspeitas de corrupção e fraude fiscal.
Esta semana voltou a colocar-se sob os focos mediáticos em Espanha ao apresentar uma queixa na justiça, num tribunal da Cantábria, no norte do país, contra Miguel Ángel Revilla, de 82 anos e presidente do governo autonómico daquela região entre 2003 e 2011 e entre 2015 e 2023, pelo Partido Regionalista da Cantábria (PRC).
Segundo um comunicado divulgado na terça-feira pelos advogados que o representam, Juan Carlos Borbón, que foi o Rei Juan Carlos I de Espanha entre 1975 e 2014, pede 50 mil euros a Revilla por declarações em vários meios de comunicação entre maio de 2022 e janeiro de 2025.
Os advogados dizem que Revilla “caluniou gravemente” Juan Carlos de Borbón e se referiu ao antigo monarca com “expressões injuriosas, difamatórias e oprobriosas que lesam o seu direito fundamental à honra”.
Além dos 50 mil euros (que os advogados garantem que serão entregues à Caritas espanhola), o rei emérito pede a Revilla que retifique as declarações nos mesmos meios de comunicação.
Numa conferência de imprensa hoje em Santander, na Cantábria, Revilla, um político regional conhecido pela forma pouco contida como se expressa e presença frequente em programas de televisão nacionais, reconheceu hoje que foi “muito duro” em diversas considerações públicas sobre Juan Carlos I, mas assegurou que não se arrepende e sublinhou que tem dito o mesmo que muitos espanhóis – se não mesmo a maioria -, incluindo outras figuras públicas.
“Porque não apresentou queixa contra Bárbara Rey, que disse coisas terríveis, ou contra Corinna?”, questionou Revilla, referindo-se a duas mulheres que mantiveram relacionamentos íntimos com Juan Carlos I e que têm feito declarações públicas sobre o ex-monarca.
Para o ex-presidente da Cantábria, Juan Carlos de Borbón pretende com esta queixa e este alvo “atalhar outras vozes” e ridicularizar o histórico político da Cantábria, aproveitando a sua popularidade e notoriedade.
Revilla considerou também “injusto e até mesquinho” que Juan Carlos I apresente uma queixa contra “um cidadão comum” quando o ex-chefe de Estado só não prestou contas à justiça por ser considerado “impune e inviolável” pela Constituição espanhola.
No período referido na queixa judicial, Revilla afirmou publicamente que Juan Carlos I é um “evadido fiscal” e “um apátrida fiscal” , que levou “muito dinheiro” de “muito duvidosa procedência” para fora de Espanha.
“Passou de homem exemplar a apátrida fiscal e alegado corrupto”, deve “pedir desculpa” e “repatriar o dinheiro que tem fora”, “foi uma fraude e uma deceção horrível” por causa das “tropelias e o dinheiro” e “os namoricos do Rei foram pagos por todos os espanhóis”, disse Revilla em diversas ocasiões sobre Juan Carlos I.
Revilla disse hoje sentir raiva e aborrecimento com a queixa de Juan Carlos I, de quem foi próximo, que “venerava” e que via como “um mito”, pelo papel na transição de Espanha para a democracia, mas que depois o desiludiu, assim como a boa parte do país, com condutas “nada exemplares”.
“Ser patriota não é só colocar uma bandeira. Há coisas mais patriotas como pagar impostos”, afirmou, insistindo em que Juan Carlos I merece as coisas “muito duras” que se dizem do monarca.
Juan Carlos de Borbón continua a fazer parte da família real espanhola, mas a Casa Real divulgou uma mensagem em que sublinha que a queixa contra Revilla foi “uma iniciativa pessoal” do ex-monarca, que não consultou a instituição ou a família sobre o assunto.
Os processos judiciais em Espanha que envolviam Juan Carlos de Borbón foram arquivados em 2002, apesar de o Ministério Público confirmar a existência de indícios de delitos fiscais, branqueamento de capitais e subornos.
No entanto, segundo o Ministério Público, vários possíveis crimes estavam prescritos e outros teriam sido cometidos quando Juan Carlos I era Rei e, por isso, protegido pela “inviolabilidade” que lhe concedia a Constituição ao ser chefe de Estado.
As revelações sobre a origem duvidosa da sua fortuna minaram a imagem de uma personalidade que durante décadas foi muito respeitada e de grande popularidade em Espanha, atendendo ao papel que se lhe reconhece durante a transição democrática, após o regime franquista (1975).
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