Ao discursar no início do jantar com que está a ser obsequiado no Palácio da Ajuda, em Lisboa, pelo homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa, que o precedeu, Macron sustentou que é esse “princípio da ação” que deve permitir aos líderes europeus defender a Europa dessas ameaças “e manter a segurança das democracias fortes para o futuro”.

“Sei que posso contar consigo, senhor Presidente e senhor primeiro-ministro [Luís Montenegro, também presente no jantar], para agirmos juntos para a Europa e fazermos tudo o que for possível. E, com António Costa na presidência do Conselho Europeu, temos um aliado, um amigo precioso para alcançar os nossos objetivos”, referiu.

Sem nomear as crises políticas e militares internacionais em curso, Macron elogiou as palavras de Marcelo na intervenção que o antecedeu, em que o Presidente português acusou o homólogo norte-americano, Donald Trump, de favorecer a Rússia em detrimento da União Europeia (UE) na Ucrânia e de atacar a soberania de parceiros e aliados.

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que Trump “rompeu com a orientação do seu antecessor [Joe Biden] e com toda a política externa desde a Segunda Guerra Mundial” e “questionou a soberania do Canadá, aliado na NATO e na Ucrânia" e, por consequência, o rei do Reino Unido, outro aliado tradicional.

“[Trump] questionou ainda a administração da Dinamarca, outro aliado na NATO e na Ucrânia, na Gronelândia. Afirmou o objetivo de paz o mais rápido possível na Ucrânia, assente no entendimento preferencial com a Federação Russa e sem intervenção europeia”, referiu.

“Como podem ter ouvido, o Presidente da República [português], com este talento, fez um discurso de política geral e internacional. Fê-lo com muito talento, portanto, eu não vou fazer o mesmo, mas subscrevo tudo o que disse. Porque o que disse, no fundo, é que pertencemos a povos antigos com uma história fruto de processos de civilização e de uma construção nacional”, afirmou Macron sobre a intervenção de Marcelo.

Para Macron, a “solidez” da relação bilateral “forja-se na vontade, na ambição comum de criar uma Europa próspera e unida”, com base nas referências e valores da democracia.

“Hoje, mais do que nunca, temos que ter uma Europa forte e orgulhosa dos seus valores. […] Se as referências se afundam, é preciso conservar uma direção para as potências marítimas. Isso foi muito importante e nós somos potências marítimas. Temos de ser fortes na tempestade, acreditar na universalidade dos nossos valores e numa Europa forte”, insistiu.

Sobre as relações bilaterais, Macron saudou o acordo e o tratado que será assinado sexta-feira, no Porto, com o Governo português, no segundo e último dia da visita de Estado a Portugal, a primeira nos últimos 26 anos de um chefe de Estado francês.

Receando um pouco na História das relações entre os dois países, Macron lembrou que, antes do 25 de abril de 1974, cerca de mil políticos e artistas portugueses, opositores, viviam em França, realçando uma gravação feira por Zeca Afonso, “Grândola Vila Morena”, “símbolo da resistência”, em que se “pode ouvir as botas dos soldados ao longo da canção”.

 “Mas mais do que isso, foi um oráculo da sua história em marcha. […] Os jovens capitães de abril emocionaram o mundo e galvanizaram a Europa. E 50 anos após essa idade são um exemplo de coragem e lucidez que merece a nossa admiração”, destacou Macron.

O Presidente francês disse estar convencido de que são relações humanas que a relação entre os dois países “tem a sua força, a sua energia e o seu futuro”.

“E também nas nossas línguas, francês e português, que estão no coração da lusofonia e da francofonia, que procuram desemaranhar a ameaça, a armadilha das civilizações”, acrescentou.

Nesse sentido citou mais pontos comuns, como Jean Jarreau, Amadeu de Sousa Cardoso e as Cartas de Paris escritas por Eça de Queiroz, as alianças entre Bourbon e Bragança, e até o encenador Tiago Rodrigues, de Paris a Avignon.

“Porque também, às vezes, na verdade, vocês roubaram-nos tantos talentos, mas nós também o fazemos”, brincou Macron, que terminou a intervenção lembrando o facto de Portugal ser o único país no mundo que fez, da data de nascimento do seu maior poeta, Luís de Camões, o Dia de Portugal.

“Ouça as palavras de Victor Hugo, um grande poeta francês: ‘Vocês, portugueses, não deixam de ser navegadores e intérpretes. Hoje navegamos na verdade’”, concluiu.