
Dois feminicídios ocorridos num curto espaço de tempo provocaram uma onda de indignação e protestos em várias cidades italianas. As vítimas, ambas estudantes universitárias de 22 anos, foram assassinadas em circunstâncias violentas, reacendendo o debate sobre a violência contra as mulheres em Itália, conta o The Guardian.
Na passada segunda-feira, Sara Campanella, estudante de Biomedicina, foi esfaqueada numa paragem de autocarro na cidade de Messina, na Sicília. A jovem acabou por morrer a caminho do hospital. O alegado agressor, Stefano Argentino, de 27 anos, colega da Universidade de Messina, foi detido posteriormente na localidade de Noto. Segundo o Ministério Público, o suspeito já teria vindo a assediar a jovem “de forma insistente e repetida” desde que ela iniciou o curso, há dois anos.
Menos de dois dias depois, o corpo de Ilaria Sula, aluna de Estatística na Universidade Sapienza de Roma, foi descoberto dentro de uma mala numa zona florestal nos arredores da capital. A jovem estava desaparecida desde 23 de março e terá sido esfaqueada até à morte. O seu ex-namorado, Mark Samson, de 23 anos, está sob custódia policial, suspeito de homicídio e ocultação de cadáver.
A comoção causada por estas mortes levou centenas de pessoas a sair à rua em protesto nas cidades de Messina, Roma, Bolonha e outras localidades italianas. Manifestações estão agendadas para os próximos dias, à medida que a pressão aumenta para uma resposta concreta por parte das autoridades.
Com estas duas mortes, o número de feminicídios em Itália desde o início de 2025 sobe para 11. Em 2024, registaram-se 113 casos, sendo que 99 foram perpetrados por familiares, parceiros ou ex-parceiros. Os números alarmantes refletem uma realidade persistente e trágica, que muitos setores da sociedade já consideram uma verdadeira emergência nacional.
"Do ponto de vista legislativo, Itália está mais avançada do que muitos países, mas culturalmente ainda não conseguimos evoluir com a mesma rapidez. Precisamos de uma rebelião partilhada por todos", disse Mara Carfagna, secretária do partido de centro-direita Noi Moderati ao jornal La Stampa.
A crescente indignação pública tem influenciado a agenda política. Em março deste ano, o governo liderado por Giorgia Meloni aprovou um anteprojecto de lei que, pela primeira vez, introduz a definição de feminicídio no código penal italiano, punindo-o com prisão perpétua. A nova legislação também agrava as penas para crimes como perseguição, violência sexual e divulgação não consentida de conteúdos íntimos (“revenge porn”).
Esta proposta legislativa surgiu na sequência da comoção nacional provocada pelo homicídio de Giulia Cecchettin, assassinada em novembro de 2023 pelo ex-namorado, Filippo Turetta, condenado a prisão perpétua em dezembro passado.
Entretanto, deputados do Partido Democrático (oposição) defendem que “uma ação preventiva incisiva” é fundamental para travar esta “carnificina contínua de mulheres”, a começar desde logo com a educação nas escolas.
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