Os nossos aglomerados urbanos parecem aqueles portais de internet manhosos onde saltam pop-ups que nos tentam seduzir a cada clique de rato. Sejam outdoors, néones, mupis ou ecrãs gigantes, estes pululam em cada esquina, reta, curva, fachada, árvore, torre, rotunda, monumento, paisagem. Um suplício para o comum cidadão.

Os lugares, sejam espaços naturais ou humanizados, perdem identidade e diluem-se numa amálgama de mensagens e imagens repetidas vezes sem conta (e vezes demais) em latitudes díspares.

Pelos vistos, também a recente Depressão Martinho, que assolou o território nacional na passada semana, pensa da mesma forma, embora tenha métodos mais extremos de o demonstrar. São inúmeras as estruturas que foram destruídas e arrastadas pelos ventos, o que nos remete para outra perspetiva: a da segurança e da perigosidade que encerram estes suportes publicitários, totalmente supérfluos para a nossa vivência.

No Montijo, por exemplo, na Rotunda das Portas da Cidade, cerca de metade dos outdoors que rodeavam esse local ficaram destruídos. No entanto, ainda restam outdoors a mais…

Numa altura em que a comunicação se faz quase toda em formato digital ou audiovisual, e a publicidade se adequou às variadas plataformas existentes, seria de esperar que o espaço público pudesse usufruir de maior liberdade. Paradoxalmente, parecem ter aumentado exponencialmente os suportes de publicidade e propaganda. Acresce o facto de que a publicidade parece ter perdido a sua criatividade, limitando-se agora a debitar uma mensagem ou expor um produto. 

Evidentemente, que só com vontade política poderemos de alguma forma alterar este estado de coisas e caminhar para a diminuição gradual (ou até extinção) destes suportes publicitários. As autarquias teriam de rejeitar o dinheiro que este negócio traz aos seus cofres e os partidos teriam de se colocar de acordo relativamente a uma redução substancial de propaganda política no espaço público. Arriscaria mesmo a dizer que a propaganda política se devia limitar à colocação de estruturas amovíveis de fraco impacto, apenas durante os períodos de campanhas eleitorais.

Enquanto cidadãos cabe-nos fazer uma análise crítica da ocupação do espaço público pela publicidade e propaganda. E se chegarmos à lógica conclusão de que tudo isto é demais forçar a vontade política, exigindo medidas que revertam esta situação. Libertar o espaço público destas barreiras que nada acrescentam ao nosso quotidiano e à nossa vivência partilhada deve ser um objetivo comum.